Ninguém é imune à São Paulo. A cidade transpassa nosso limites individuais e nos invade. Não moramos em São Paulo, moramos com São Paulo. Temos que aprender a conviver com suas manias e suas extravagâncias, com seu mau humor e agressividade, mas também com suas carícias e sua luxuria. Tudo é mais intenso na metrópole.
Desde 2009, ando pela cidade com minha câmera pra registrar algumas facetas dessa selva. Logo passei a me interessar pela arquitetura em crise da cidade. O primeiro projeto foram os galpões da rua Presidente Wilson e região. Trata-se de um resquício arqueológico ainda vivo, prédios zumbis que perambulam estáticos pela cidade; lembranças dos tempos antigos, nos quais a metrópole era uma cidade industrial. Essas construções, a cada dia atropeladas pela especulação imobiliária, parecem acuadas, temerosas do seu fim que se espreita. Na verdade esses prédios já não existem mais e o fato de ainda estarem lá, funcionando, é mais um dos paradoxos urbanos de São Paulo. O que não falta nessas ruas são coisas que não existem circulando em suas quase invisibilidades.
O segundo projeto é sobre a arquitetura de caixas nas ruas atrás do Ceagesp. Um dos maiores interpostos comerciais do planeta gerando milhares de caixas de madeira direto para o lixo. Claro que uma indústria iria se instaurar aí, afinal essa matéria-prima ainda pode ser usada, mesmo que não haja nenhuma condição de higiene para isso. Caixa de madeira é descartável, mas se dermos um jeitinho, sabe como é… E assim começou, nas calçadas, a construção de verdadeiras arquiteturas – e no sentido literal, existem casas lá dentro, afinal durante a noite alguém tem que vigiar os estoques a céu aberto. Os feirantes vendem as caixas pros caixeiros, que ficam lá na rua concertando e revendendo esse material. De vez em quando, aparecem fiscais da prefeitura e quebram tudo. Os caixeiros são pessoas muito humildes que precisa disso pra viver, mas o poder público não pode permitir esse comércio. Está em implantação um projeto de utilizar caixas de plástico reaproveitáveis e assim acabar com esse comércio clandestino. Esse pessoal das calçadas vai ter que se virar como tantos outros pelas ruas da cidade, mas por hora estão lá, vivendo no limiar da própria tragédia.
Por fim tem a serie de Quebradas, uma síntese de algumas fachadas que cliquei por aí. Quis juntar construções que estão em um limite da arquitetura. Algumas abandonadas, outras improvisadas, mas todas precárias. Não quis mostrar a grande arquitetura da cidade, porque ela não é a realidade, são ilhas isoladas. São Paulo é uma cidade feia e essa é a verdade. Belas fotos da cidade são raras, mas isso não quer dizer que se possam encontrar pontos de interesse. Essa série tem como objetivo expor de uma forma estética esses resultados, muito mais das circunstancias que de engenhos estéticos de algum construtor.
Ao abordar a arquitetura, meu foco foi a experiência coletiva que é São Paulo, não como um retrato, que tem por objetivo mostra a face da cidade. Não se pode retratar esse centro urbano sem ser omisso, a pluralidade de pontos de vista e contrastes inviabiliza qualquer polarização. Por tanto não se trata de um retrato, mas de uma perspectiva. O que proponho através das arquiteturas em crise é uma reflexão sobre a formação da cidade, sobre seu processo orgânico de desenvolvimento, sem planejamento ou controle. Não é o poder publico o responsável por esse processo, ele corre independente dele. O governo está sempre atrás de controlar os movimentos espontâneos da cidade e muitas vezes se mostra incapaz ou omisso. Mas a cidade acontece, se transforma, se sobrepõe a seus próprios resto. O que retratei é uma arquitetura das necessidades que se prende ao solo como musgo em uma pedra a margem de um riu de fluxos urbanos.